20 de agosto de 2008

Comentário olímpico

É normal ver essas transmissões esportivas em que um atleta ou equipe brasileira tem chances reais de título e ficar impressionado com o investimento emocional dedicado ao resultado da competição por parte de narradores e espectadores. Não é apenas uma vitória pela qual se torce, é algo muito mais visceral: uma oportunidade de “lavar a alma”, chorar, abraçar, se enrolar na bandeira, recuperar a auto-estima, gritar, sair buzinando, se “orgulhar de ser brasileiro” naquele misto de complexo de inferioridade/superioridade descrito pelo Piza, acreditar que o futuro vai ser melhor, sambar, deixar de criticar o governo etc. etc. Claro que passar por esse processo de catarse toda Olimpíada, Copa do Mundo, corrida de F1 na chuva, torneio de vôlei de praia ou qualquer outro esporte em que de repente surge um brasileiro competitivo não deve ser saudável, mas não adianta criticar os sintomas desse desequilíbrio emocional. O que me preocupa é o que acontece quando o pessoal tem que narrar/assistir um jogo, como por exemplo, a semifinal do vôlei de praia masculino realizada ontem, em que dos dois lados da quadra foram ocupados por duplas que falam português e cantam o hino nacional. Será que eles ficam divididos, travados pelo paradoxo de que uma vitória brasileira implicará uma derrota brasileira? “Pelo” Brasil, serão capazes de torcer “contra” o Brasil? Conseguirão conciliar “em seus corações” a euforia dos vencedores com o “choro” dos perdedores? Ou, na medida em que o valor da nação não está em jogo, a partida simplesmente perde o apelo? Se tiverem que escolher uma dupla (afinal, não assistir o vôlei de praia deve ser impensável...), escolherão friamente (irônico) a com melhores chances de arrasar os estrangeiros na final, ou escolherão a dupla mais humilde/carismática/fotogênica/que acabou de ser pai?

18 de agosto de 2008

Fundamental

O RH mandou um email para todos os “colaboradores” da empresa convocando todo mundo para uma “seção” (sic) de fotos para a confecção de crachás individuais. Eu vou ter que estar por aqui as 9:00 do dia 20, mas adorei o tom inspirador do email: “A sua presença é fundamental, uma vez que o uso do crachá será obrigatório a todos.” Ou seja, por mais que o assunto seja uma ordem burocrática rotineira imposta a todos os “colaboradores” na véspera, fico inspirado ao saber que “minha presença” é “fundamental” nas fotos, segundo o entendimento da pessoa que manda esse tipo de email anônimo. Estou tão emocionado que preciso de uma pausa para pegar alguma coisa no Starbucks

Progresso

Lamento informar, mas a posse de um Macbook durante uma semana inteira ainda não mudou minha vida. Para minha surpresa, não percebo nenhum aumento de criatividade, produtividade ou qualquer outra característica desejável. A experiência continuará. Nos próximos dias, buscarei ver que efeitos ele proporciona se deixar ligado.

Dica de segunda

Para quem estiver procurando algo muito interessante para ler agora, não custa passar pelo verbete do Sergei Rachmaninoff na Wikipedia. É um pouco longo, mas muito bem escrito. Um trecho:
He slowly learned the pieces he played, detail by detail. Abram Chasins told about visiting Rachmaninoff one day and stopping outside. Rachmaninoff "was practicing Chopin's Étude in thirds but at such a snail's pace that it took me a while to recognize it because so much time elapsed between each finger stroke and the next. Fascinated, I clocked this remarkable exhibition: 20 seconds per bar was his pace for almost an hour while I waited riveted to the spot, quite unable to ring the bell."[55] Paradoxically, Rachmaninoff often sounded like he was improvising, though he actually was not. While his interpretations were comprised of mosaics of tiny details, when those mosaics came together in performance, they might, according to the tempo of the piece being played, fly past at great speed, giving the impression of instant thought.[56]
"One must play a piece a thousand times, making a thousand experiments, listening, comparing, judging," he said, "for only as the individual learns to decide and to control his musical effects does he become an interpreter and come near to the stature whose works he should recreate. And only through unceasing labor can he accomplish such a mission."[57] Rachmaninoff built his interpretations methodically, down to the last, fleeting shadow-like nuance, putting together readings of perfect architectural balance and inexorable musical logic.[58] Josef Hofmann admitted to him, "I dare say that I do not plan how to build a composition and occasionally it happens to sound well."[59]
http://en.wikipedia.org/wiki/Sergei_Rachmaninoff

Ah, um trivia que eu tinha esquecido: o protagonista de O Pecado Mora ao Lado pretendia usar o Piano Concerto No. 2 para seduzir a vizinha Marylin Monroe. (Bons tempos)

7 de agosto de 2008

Umbigo

Sabia que umbigo em inglês é "navel"? Agora você sabe, e pode ficar tranqüilizado. (Em circunstâncias mais ou menos improváveis, essa informação pode salvar vidas.)
Além disso, se você se vir urgentemente necessitando emitir uma crítica devastadora, em inglês, para algum blog, e não consegue ir além de derivative e superficial no seu post ou email crítico, agora pode acrescentar navel-gazing no comentário para terminar de desmoralizar seu adversário.
(Não precisam me agradecer, é para isso que esse blog existe: ajudar a salvar vidas e incrementar trocas de insultos online.)

6 de agosto de 2008

Garfield

Don Walsh teve uma boa idéia: fazer tiras em quadrinhos de Garfield sem o Garfield. Com o gato gordo, cínico e "louco por lasanha" removido digitalmente, sobram as participações de Jon nas historinhas, com um resultado inusitado. Em vez do conhecido humor inofensivo de Garfield, Garfield Minus Garfield mostra apenas um jovem solitário colecionado frustrações enquanto leva uma vida tediosa e deprimente. Com uma simples intervenção no photoshop, Walsh transforma uma tira célebre pela sua total falta de pretensão numa investigação existencial muito mais intrigante:
Falta mencionar o mais surpreendente: Jon Adams, o criador de Garfield, ao descobrir o que estavam fazendo com seu personagem alter-ego há mais de 30 anos, não processou o cara. Pelo contrário, numa entrevista, declarou que G-G é uma coisa inspirada, e agradeceu ao autor por estar mostrando uma outra faceta de Garfield. Agora G-G está virando um livro, a ser publicado pela própria editora do Garfield.

Crisis

Mais um link para um artigo da Slate, dessa vez a respeito dos revolucionários documentários de Robert Drew sobre Jack Kennedy, Primary (1960) e Crisis (1963). Vindo do fotojornalismo, Drew praticamente precisou inventar fimadoras portáteis para poder acompanhar seus assuntos a qualquer lugar, e inventou um estilo de "cinema-verdade" de grande influência nas próximas décadas.
Primary acompanha as campanhas primárias do Partido Democrata nas eleições presidenciais de 1960, e testemunha os bastidores do surgimento da figura de Kennedy. (Aqui no Brasil, Primary viria a ganhar uma refilmagem, Entreatos, de João Moreira Salles, só que com Lula no papel de Kennedy e Dona Marisa no lugar de Jackie.)
Crisis já mostra Kennedy na Casa Branca, durante um dos primeiros conflitos do movimento dos direitos civis (A Suprema corte decretara que a Universade do Alabama devia integrar alunos brancos e negros, o governador Wallace anunciou que ia bloquear a entrada).
Segundo o artigo, Crisis é menos revelador e mais convencional que Primary, mas é um retrato pioneiro do funcionamento do Salão Oval num momento intenso. O mais interessante da história é que Kennedy autorizou a realização do documentário pelo seu potencial interesse histórico: ele gostaria de poder ter assistido, por exemplo, a uma gravação do Salão Oval em seguida ao ataque a Pearl Harbor.
(Pena que não lembraram de ligar as câmeras durante a crise dos mísseis cubanos, alguns meses depois, quando se esteve a beira do início da 3a guerra mundial - isso sim teria valor histórico inestimável)

5 de agosto de 2008

O George Bailey Moderno

Daniel Gross, da Slate, foi entrevistar Ronald Hermance Jr, CEO do Hudson City Bank, a única instituição financeira de Nova York que está se saindo bem no meio da megacrise. A fórmula é simples, e não difere muito do que eles já têm feito há 140 anos: dar crédito apenas para bons pagadores, coletar depósitos de regiões afluentes, expandir com cautela, focar no longo prazo. O banco só está chamando atenção porque todos os outros bancos maiores estiveram ocupados nos últimos anos fazendo o oposto, e agora precisam ser socorridos pelo Fed ou petrodólares. Tudo isso pode ser lido no artigo, mas esse comentário do CEO é curioso:
So how is it that Hermance kept his head when all the geniuses with higher pay and fancier pedigrees lost theirs? The tri-state metro area's only smart banker shrugs. We all approach life's fundamental choices from a unique angle. "It's like my grandfather used to say," he says. "If everybody thought the same way, they would have married your grandmother."

Trocadilho

O Faustão sempre declara que um dos seus maiores arrependimentos na TV foi levar ao ar o infame "sushi erótico". Podia ter sido pior: podiam ter mostrado um "sumô erótico"... (agora tente tirar a imagem da cabeça.)

4 de agosto de 2008

Extra! Extra!

De acordo com o Estadão, a Duffy é um homem.
O sucesso do ABBA fez o álbum "Viva La Vida Or Death And All His Friends", do Coldplay, cair para a segunda posição, com "Rockferry", do cantor galês Duffy, em terceiro.
Olhando a foto, é óbvio né?